Em tempos de eleições, ouvimos muitas pessoas falarem sobre alienação.
Este artigo tem como finalidade ampliar a compreensão sobre a alienação, de um modo geral. Não apenas político/ideológico. Sem esgotar o tema, que é bem amplo.
Aliena-se quem transfere a soberania sobre a própria vida para outra pessoa, uma instituição, uma ideologia, uma profissão, um time de futebol, um amor ou uma imagem de si construída para agradar.
A alienação não é um evento único. Ela se instala de forma gradual, frequentemente silenciosa, e assume formas distintas.
Ela pode ser política, religiosa, parental, romântica, profissional. E, em todas essas formas, compartilha o mesmo núcleo: a pessoa passa a se definir a partir do outro, deixando de habitar a própria experiência.
Alienação política: quando o político favorito sintetiza suas aspirações pessoais.
A alienação política aparece em quem deposita confiança irrestrita nos políticos.
Nesse caso, a pessoa até se interessa pelo assunto, mas abre mão de pensar por conta própria: aceita discursos e promessas como verdade, sem checar fatos, comparar propostas ou cobrar resultados.
Ao tratar o político como alguém acima de qualquer dúvida, ela entrega a ele o próprio poder de julgamento e deixa de exercer o papel de cidadã que fiscaliza quem governa. A política vira um espetáculo de circo, não uma prática de todos.
Nessa forma de alienação, o indivíduo perde a noção de que sua voz importa, e ao inves de FALAR, ele apenas OUVE, ACEITA, ACATA e jamais duvida.
Perde a noção de que ele tem poder — ainda que limitado — sobre elas.
O resultado é uma cidadania esvaziada: a pessoa se mantém informada, indignada ou apática, mas não se percebe como agente.
Mas há uma camada mais profunda nessa história: a polarização afetiva, que transforma diferenças de opinião em rupturas de laços afetivos.
Hoje, as pessoas não estão apenas discordando sobre ideias.
Estão rompendo laços com pessoas que amam por causa de visões de mundo diferentes.
O foco deixou de ser a discussão de propostas e passou a ser o afeto (ou a falta dele): desconfiança, desprezo, medo do outro. Quem pensa diferente não está apenas enganado — parece ser uma ameaça ou alguém com valores morais duvidosos.
E é aqui que a alienação política se retroalimenta: quanto menos a pessoa participa do debate real, mais o mundo parece não lhe pertencer.
Quanto mais o mundo parece não lhe pertencer, mais ela se refugia em bolhas — e mais o outro se torna um inimigo abstrato.
Alienação parental: quando o vínculo que deveria cuidar aprisiona
A alienação parental é uma das formas mais dolorosas, porque se dá dentro do vínculo que deveria ser de cuidado.
Ela ocorre quando um dos responsáveis, em situação de conflito, programa a criança ou o adolescente para que rejeite o outro genitor.
Isso é feito distorcendo a realidade, desqualificando a imagem do outro e usando o afeto da criança como instrumento de guerra entre adultos.
O que está em jogo, aqui, é a alienação de um sujeito em formação. A criança passa a organizar sua percepção de si, do outro e do amor a partir de uma narrativa imposta.
Ela aprende que amar é escolher um lado. Que a lealdade exige a exclusão do outro. E que seu próprio afeto é moeda de troca.
A alienação parental viola o direito da criança à convivência, à identidade e à verdade sobre sua própria história. É, antes de tudo, uma forma de violência relacional que se mascara de cuidado.
Alienação romântica: o amor que apaga
A alienação romântica é talvez a mais socialmente romantizada. Ela acontece quando o amor deixa de ser encontro entre duas pessoas inteiras e passa a ser dissolução de uma na outra.
A pessoa alienada romanticamente organiza sua vida em torno do outro. Seus horários, seus interesses, suas amizades, sua autoestima e até seu senso de realidade passam a depender da aprovação do parceiro.
Há sinais claros. A pessoa deixa de expressar opiniões para evitar conflito. Aceita comportamentos que antes consideraria inaceitáveis. Sente culpa ao impor qualquer limite.
Confunde intensidade com intimidade e controle com cuidado. Isola-se de amigos e familiares. E, sobretudo, perde a capacidade de se perguntar o que ela própria deseja.
Essa configuração frequentemente se apoia em um terreno chamado dependência afetiva. Nela, a pessoa sente extrema dificuldade de tomar decisões básicas sem o aval de alguém, vivendo em constante busca de aceitação.
É como um copo furado: não importa quanto afeto a pessoa receba, nunca é suficiente.
A sensação de escassez retorna rapidamente, e o foco deixa de ser a troca para se tornar a urgência.
O medo da solidão pode ser tão paralisante que a pessoa prefere permanecer em relações insatisfatórias a enfrentar a possibilidade de ficar sozinha.
A alienação romântica floresce onde há pessoas controladoras. Relacionar-se com personalidades controladoras exige maturidade emocional e o estabelecimento rigoroso de limites — porque o controle do outro não define o valor de quem é controlado.
As estratégias de preservação emocional são conhecidas: comunicação assertiva, firmeza de limites, não internalização das críticas, preservação de espaço individual e seletividade de conflitos.
O problema é que a pessoa alienada romanticamente não chega a essas estratégias, porque já perdeu o referencial de si. Ela não sabe onde termina e onde o outro começa. E, sem esse referencial, não há limite possível.
Alienação profissional: a verdade absoluta sobre as soluções
Existe uma forma de alienação pouco discutida: a profissional. Ela acontece quando determinadas categorias ou profissionais acreditam ter a verdade absoluta sobre certas soluções.
E passam a enxergar o mundo, as pessoas e os problemas exclusivamente a partir do próprio código de especialidade.
Nessa configuração, o profissional deixa de escutar o sujeito e passa a escutar apenas a própria técnica. O paciente, o cliente ou o aluno deixa de ser alguém com uma história singular e se torna um caso, um protocolo, um diagnóstico.
A solução vem antes da pergunta. O método se sobrepõe à pessoa.
Essa alienação é perigosa justamente porque se veste de competência. Ela não se anuncia como alienação; anuncia-se como autoridade.
E, como toda alienação, subtrai do outro a voz — e do próprio profissional, a capacidade de duvidar, de aprender e de reconhecer limites. O antídoto é o mesmo: humildade, escuta e consciência de que nenhuma técnica esgota a complexidade de um ser humano.
O ponto de convergência: a ausência de limites
Todas essas formas de alienação compartilham um mesmo mecanismo psicológico: a dificuldade de se posicionar.
A pessoa alienada não consegue dizer "não". Não consegue reconhecer o que sente. Não consegue distinguir o que é seu do que lhe foi imposto.
A psicologia chama isso de déficit de assertividade — a capacidade de expressar pensamentos, sentimentos, opiniões, necessidades e limites de maneira clara, direta e respeitosa, sem submissão, passividade ou agressividade.
A pessoa assertiva nem sempre consegue se posicionar, mas tenta, reflete e se incomoda quando percebe que deixou passar uma oportunidade de se posicionar.
Quem foi alienado — política, religiosa, parental, romanticamente ou profissionalmente — frequentemente não desenvolveu essa habilidade.
Pode ter sido ensinado, desde cedo, que impor limites é sinal de egoísmo, que ceder é virtude e que o amor exige anulação. Pode ter vivido relações em que o desequilíbrio era a norma.
Uma pessoa dá demais, suporta demais, cede demais. Enquanto a outra apenas recebe, exige, manipula ou se aproveita.
A esses padrões a psicologia dá nome. A síndrome do super-herói descreve aqueles que se acostumaram tanto a carregar o peso do mundo que passaram a enxergar certas situações como normais, mesmo quando o sofrimento é evidente.
A pessoa sente que precisa estar sempre disponível para resolver os problemas dos outros, mesmo que isso custe tempo e recursos que não dispõe — e mesmo que seja tratada com ingratidão.
Por trás da capa, podem existir desde a crença de que só tem valor se for útil até o medo de olhar para si mesma.
Tudo isso costuma se manifestar como dificuldade de relacionamento — o impedimento que surge quando um indivíduo precisa estabelecer conexões, mas não consegue, por mais que queira.
Padrões de apego inseguros, experiências de rejeição, críticas excessivas, ausência de modelos de vínculo confiável, baixa autoestima, medo de vulnerabilidade e necessidade excessiva de aprovação podem estar envolvidos.
A pessoa acaba desenvolvendo estratégias de proteção — evitação, desconfiança, distanciamento — que fizeram sentido em algum momento, mas que depois passam a limitar vínculos mais satisfatórios.
O caminho de volta: amor-próprio e limites
Se a alienação é a perda de si, o caminho de volta é a reconstrução de uma relação consigo mesmo. E isso começa pelo amor-próprio.
Amor-próprio não é vaidade, nem narcisismo, nem excesso de autocuidado compensatório. É a capacidade de se aceitar e se respeitar, considerando qualidades e limitações, sem comparação constante com o outro.
É um respeito genuíno e uma valorização por si mesmo, que não depende apenas de conquistas externas, aprovação social ou desempenho. Implica reconhecer tanto as qualidades quanto as limitações, compreendendo que ambas fazem parte da experiência humana.
E está ligado ao autoconhecimento: quanto mais a pessoa reflete sobre suas emoções, comportamentos, valores e necessidades, maior tende a ser sua compreensão sobre quem ela é.
O amor-próprio não é egoísmo. Ao contrário: ao cultivá-lo, a pessoa deixa de buscar a aprovação externa como única fonte de validação e torna-se capaz de relações mais empáticas e equilibradas.
E ele se expressa, concretamente, na capacidade de impor limites. Dizer "não" é um ato de amor-próprio. Posicionar-se é um ato de amor-próprio. Reconhecer que uma relação é abusiva é um ato de amor-próprio.
A assertividade não elimina conflitos da vida, mas permite lidar com eles de maneira mais consciente, equilibrada e respeitosa.
A psicoterapia, nesse contexto, funciona como um espaço de reflexão e desenvolvimento pessoal para quem apresenta dificuldades relacionadas ao posicionamento, aos limites interpessoais e à expressão das próprias necessidades.
Ela ajuda a identificar padrões emocionais e comportamentais que se repetem ao longo da história e que afetam relacionamentos, autoestima ou bem-estar emocional — e a compreender por que se tolera determinadas situações, por que se sente culpa ao impor limites e de que maneira construir formas mais saudáveis de comunicação e convivência.
Conclusão
A alienação, em qualquer de suas formas, é uma subtração. Subtrai do sujeito a política, o sagrado, a infância, o amor, a profissão — e, no limite, subtrai o próprio sujeito de si mesmo.
Ela opera pela via da naturalização: aquilo que é imposto passa a parecer escolhido. Aquilo que é abuso passa a parecer normal. Aquilo que é silêncio passa a parecer paz.
O antídoto não é a revolta cega, mas a consciência. É o movimento de retomar a própria voz — de reconhecer o que se sente, o que se deseja e o que não se aceita.
É o exercício da assertividade, que se aprende e se pratica. É a construção de limites, que protegem a integridade de quem os estabelece. E é, no fundo, o resgate do amor-próprio: a convicção de que a própria vida merece ser habitada por inteiro.
Alienar-se é deixar de morar em si. O caminho de volta começa quando alguém decide, enfim, voltar para casa.
Referências
SOMA, Sheila Maria Prado; CASTRO, Marina Souto Bezerra Lopes de; WILLIAMS, Lúcia Cavalcanti de Albuquerque; TANNÚS, Pedro Magrin. A alienação parental no Brasil: uma revisão das publicações científicas. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 21, n. 3, p. 377-388, jul./set. 2016.
Conteúdo informativo desenvolvido pela Psicóloga sp Maristela Vallim Botari (CRP-SP 06-121677). Este material possui caráter reflexivo e não substitui a consulta psicológica, nem tem a pretensão de esgotar o assunto. Em situações de crise ou emergência, procure o CVV (188) ou o serviço de urgência mais próximo
"O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural."
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