Parece que chegamos a uma época em que até a aparência precisa passar por uma auditoria socioeconômica.
Nas redes sociais, multiplicam-se os especialistas em identificar sinais de riqueza e pobreza.
Eles sabem exatamente qual roupa uma pessoa rica usaria, qual restaurante frequentaria, como deveria se comportar e até quais meios de transporte seriam compatíveis com seu suposto patrimônio.
Existe roupa de rico, roupa de pobre, bolsa de rico, bolsa de pobre, restaurante de rico e, aparentemente, até transporte público de pobre.
É quase uma ciência: basta olhar para alguém e, em poucos segundos, o especialista já elaborou um diagnóstico financeiro completo. Sem consultar extrato bancário, declaração de imposto de renda ou qualquer outro dado. Apenas pela aparência.
O problema é que essa classificação revela muito mais sobre quem julga do que sobre quem está sendo julgado.
Afinal, desde quando o poder aquisitivo determina onde uma pessoa pode circular, o que pode vestir ou como deve se comportar?
Uma pessoa pode ter dinheiro e preferir andar de metrô. Pode comprar uma bolsa de grife e utilizar transporte público. Pode morar em um apartamento simples e ter investimentos milionários. Pode, inclusive, gostar de coisas caras sem precisar transformar isso em uma demonstração pública de status.
E aqui chegamos a uma das manifestações mais curiosas desse fenômeno: influenciadores que afirmam que uma pessoa usando uma bolsa de grife no metrô só pode estar carregando uma falsificação.
Veja que interessante: na cabeça desses especialistas, uma bolsa legítima não combina com o metrô. Aparentemente, o transporte público possui uma espécie de controle de acesso simbólico, no qual determinados acessórios não são permitidos.
Mas quem são essas pessoas para determinar onde alguém pode usar aquilo que comprou com o próprio dinheiro?
Desde quando uma grife concede ao seu proprietário o direito de julgar o patrimônio alheio? E, principalmente, desde quando utilizar transporte público se tornou um atestado de pobreza?
Talvez o problema não seja a bolsa falsa. Talvez seja a necessidade de acreditar que o mundo está organizado em categorias tão rígidas que até o passageiro do metrô precisa apresentar credenciais para justificar sua aparência.
No fim das contas, há uma diferença enorme entre ter dinheiro e precisar convencer os outros de que se tem dinheiro.
E, convenhamos, algumas pessoas parecem muito mais preocupadas em fiscalizar a suposta riqueza alheia do que em cuidar da própria vida.

