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Psicologia dos Relacionamentos

O Futebol e a identidade do brasileiro

 Copa do Mundo chegando, e pessoas em boa parte do mundo já começam a se preparar para torcer por suas seleções. 

Ruas são enfeitadas, bandeiras são estendidas nas janelas e sacadas, e milhões de pessoas se organizam para assistir aos jogos. 

Durante algumas semanas, o futebol deixa de ser apenas um esporte e se transforma em uma poderosa expressão de identidade nacional. 

 

O Futebol e a identidade do brasileiro
Desculpe pela imagem: foi a melhor que a IA conseguiu fazer.

Muitos se emocionam ao ver sua seleção entrar em campo. 

Alguns vão à loucura, perdendo até mesmo o senso crítico — mas isso é assunto para outra conversa. 

Há quem comemore ao lado de familiares e amigos; outros assistem sozinhos. E, infelizmente, também existem aqueles que transformam o futebol em motivo para brigas e violência.

Mas onde eu quero chegar?

Naquela velha discussão que reaparece toda vez que a Copa do Mundo começa: "Por que o brasileiro só se une em época de Copa?"

Gostaria de refletir um pouco sobre essa questão. Sem a pretensão de esgotar o tema, muito menos de apresentar uma verdade absoluta. Afinal, quando falamos de identidade nacional, estamos lidando com algo complexo, cheio de contradições e diferentes interpretações.

 

O Futebol e a identidade do brasileiro 

Será que o brasileiro realmente só se une durante a Copa? Ou será que a Copa apenas torna mais visível um sentimento de pertencimento que existe o tempo todo, mas que raramente encontra uma oportunidade tão forte para se manifestar? 

Durante o Mundial, milhões de pessoas, com histórias, opiniões políticas, religiões e condições sociais diferentes, passam a compartilhar um mesmo símbolo, uma mesma expectativa e, por algumas semanas, um mesmo desejo. Não é que as diferenças desapareçam. 

Elas continuam lá. Mas, naquele momento, existe algo maior capaz de reuni-las sob uma identidade comum: a de ser brasileiro. 

O futebol ocupa um lugar singular na construção da identidade brasileira. Mais do que um esporte, ele funciona como um espaço simbólico onde narrativas sobre o que significa "ser brasileiro" são produzidas, reproduzidas e disputadas. Durante a Copa do Mundo, esse fenômeno torna-se especialmente visível: bandeiras são expostas, ruas são decoradas nas cores nacionais e milhões de pessoas passam a compartilhar emoções coletivas em torno da seleção brasileira.

Para compreender esse fenômeno, é útil recorrer ao conceito de identidade nacional. O cientista político e historiador cultural Benedict Anderson argumenta que as nações são "comunidades imaginadas". Segundo ele, os membros de uma nação jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, mas compartilham uma imagem mental de pertencimento a uma mesma comunidade. Nesse contexto, símbolos, rituais e narrativas coletivas desempenham papel fundamental na manutenção desse sentimento de unidade.

O futebol pode ser entendido como um desses rituais modernos. Quando a seleção brasileira entra em campo, milhões de indivíduos que nunca se encontraram experimentam simultaneamente emoções semelhantes: expectativa, ansiedade, esperança, alegria ou frustração. Trata-se de uma experiência coletiva que reforça a percepção de pertencimento a uma comunidade nacional.

No caso brasileiro, o futebol adquiriu relevância ainda maior ao longo do século XX. O antropólogo Roberto DaMatta observou que o esporte tornou-se uma das principais linguagens por meio das quais o Brasil passou a pensar a si mesmo. Em suas análises, o futebol aparece como um espaço privilegiado para expressar valores, tensões e representações da sociedade brasileira. A seleção nacional, nesse sentido, não representa apenas uma equipe esportiva, mas uma ideia de Brasil.

Essa relação também foi explorada pelo sociólogo Gilberto Freyre. Em textos sobre futebol, Freyre argumentava que o estilo brasileiro de jogar refletia características culturais ligadas à miscigenação e à criatividade presentes na formação histórica do país. Embora muitas dessas interpretações sejam atualmente debatidas e revisadas pela academia, elas contribuíram para consolidar a ideia de que o futebol seria uma expressão da identidade nacional brasileira.

Outro autor importante é Eric Hobsbawm, que estudou a formação das tradições nacionais. Segundo ele, muitas práticas consideradas antigas e naturais são, na realidade, "tradições inventadas", criadas para fortalecer sentimentos de pertencimento e coesão social. Sob essa perspectiva, o ritual de vestir a camisa da seleção, decorar ruas ou cantar o hino nacional durante a Copa pode ser compreendido como parte de um conjunto de práticas que reforçam simbolicamente a identidade nacional.

Entretanto, é importante reconhecer que o pertencimento produzido pelo futebol não é absoluto nem homogêneo. Nem todos os brasileiros se identificam da mesma forma com a seleção nacional, e os significados atribuídos ao futebol mudam ao longo do tempo. Questões políticas, sociais e econômicas influenciam profundamente a relação da população com seus símbolos nacionais. Assim, a Copa do Mundo não elimina diferenças ou conflitos; ela apenas cria momentos em que uma identidade compartilhada se torna mais visível.

Talvez por isso a pergunta "por que o brasileiro só se une na Copa?" mereça ser reformulada. A Copa não cria uma identidade nacional que antes não existia. O que ela faz é oferecer um dos raros espaços contemporâneos em que milhões de pessoas podem expressar simultaneamente um sentimento de pertencimento coletivo. O futebol funciona, portanto, como uma linguagem simbólica capaz de conectar indivíduos diversos em torno de uma narrativa comum, ainda que temporária e sujeita a constantes disputas de significado.

 

Referências (ABNT)

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

DAMATTA, Roberto. Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.

DAMATTA, Roberto. A bola corre mais que os homens: duas copas, treze crônicas e três ensaios sobre futebol. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

FREYRE, Gilberto. Sociologia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945. (especialmente os textos em que discute o futebol como expressão cultural brasileira).

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018.

HELAL, Ronaldo. Passes e impasses: futebol e cultura de massa no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1997.

HELAL, Ronaldo; SOARES, Antonio Jorge; LOVISOLO, Hugo. A invenção do país do futebol: mídia, raça e idolatria. Rio de Janeiro: Mauad, 2001.

MURRAY, Bill. Uma história do futebol. São Paulo: Hedra, 2000.


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Psicóloga SP - Maristela Vallim Botari

CRP SP 06-121677 

CRP-SP 06-121677 | Atendimento Humanizado

Meu papel como psicóloga é oferecer acolhimento humanizado e contribuir  com a possibilidade de ampliar a compreensão e elaboração das angústias humanas.
Acredito na importância de uma prática profissional que inclua uma abordagem humanizada na terapia, que valoriza a singularidade de cada indivíduo.
Considero que somos mais do que a soma das partes, e meu trabalho consiste em ajudar o cliente a montar o quebra-cabeça da vida.
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