Porque vamos falar de um assunto que sempre aparece quando a Copa do Mundo começa: por que algumas pessoas simplesmente detestam a Copa?
Sim, detestam.
Enquanto alguns contam os dias para a estreia da seleção, decoram a casa, compram camisetas e organizam churrascos, outros reviram os olhos diante de qualquer assunto relacionado ao futebol. Alguns chegam a evitar transmissões, fugir de reuniões e reclamar da mobilização que toma conta das ruas e das redes sociais.
Mas por quê?
A explicação mais fácil seria dizer que essas pessoas "não gostam de futebol". E, para algumas delas, é exatamente isso. Nem todo mundo aprecia o esporte, da mesma forma que nem todo mundo gosta de carnaval, novela, rock ou praia.
Mas a questão parece ser um pouco mais profunda.
Do ponto de vista da Psicologia Social, quando um grupo demonstra grande entusiasmo por algo, pode acontecer um fenômeno curioso: quem não compartilha desse interesse passa a se sentir excluído, pressionado ou até incomodado pela expectativa de participar daquela experiência coletiva.
Em outras palavras, quanto mais uma paixão parece ser de "todo mundo", mais algumas pessoas sentem necessidade de afirmar que ela não é delas.
Também existe quem associe a Copa a experiências negativas. Há quem se lembre de derrotas marcantes, de momentos difíceis vividos durante determinados torneios ou mesmo de situações em que o futebol serviu de palco para agressões, intolerância ou rivalidades excessivas.
Outras pessoas rejeitam aquilo que percebem como uma espécie de obrigação social. Afinal, por que alguém deveria vestir verde e amarelo, assistir aos jogos ou torcer pela seleção apenas porque a maioria faz isso?
E aqui chegamos a um ponto interessante: talvez o incômodo de algumas pessoas não seja com a Copa em si, mas com a sensação de que existe uma expectativa coletiva sobre como elas deveriam se sentir.
Paradoxalmente, tanto quem ama a Copa quanto quem a detesta pode estar movido pela mesma necessidade psicológica: a necessidade de afirmar sua identidade.
Uns dizem: "Eu pertenço a esse grupo."
Outros dizem: "Eu não pertenço."
E ambas as posições ajudam as pessoas a responder uma das perguntas mais importantes da experiência humana: quem sou eu em relação aos outros?
Por isso, antes de concluir que quem não gosta de Copa é antipático, amargurado ou sem espírito esportivo, talvez valha a pena considerar que existem diferentes maneiras de se relacionar com os símbolos coletivos. Nem todo pertencimento se manifesta vestindo a camisa da seleção. E nem toda crítica ao futebol é uma crítica ao país.
No fim das contas, a Copa revela algo muito interessante sobre a natureza humana: não apenas nossa necessidade de nos unir, mas também nossa necessidade de sermos diferentes.
Sem rótulos, please!!!!
Antes de continuarmos, vamos esclarecer alguns pontos.
Não há absolutamente nada de errado, patológico ou preocupante, do ponto de vista psicológico, em não gostar da Copa do Mundo.
Pelo menos, esse dado isolado não é suficiente para indicar qualquer transtorno, síndrome, distúrbio emocional ou psicopatologia.
A Psicologia não considera o gosto ou a falta de interesse por futebol como critério ISOLADO diagnóstico de nenhuma condição psicológica.
Em outras palavras: não podemos afirmar que uma pessoa não tem um problema emocional simplesmente porque não compartilha da experiência de gostar de futebol.
Aliás, seria bastante estranho esperar que milhões de brasileiros tivessem exatamente os mesmos interesses, preferências e formas de se relacionar com o mundo. Algumas pessoas gostam de futebol. Outras gostam de música, literatura, cinema, videogames, jardinagem ou astronomia. E está tudo bem.
O que desperta curiosidade é a maneira como as pessoas constroem significados em torno desse evento. Por que algumas se emocionam profundamente? Por que outras permanecem indiferentes? E por que, em alguns casos, a simples existência da Copa desperta reações tão intensas, sejam elas positivas ou negativas?
Por que algumas pessoas não gostam de futebol?
Existem várias respostas possíveis para essa pergunta, mas talvez a mais próxima da realidade seja que algumas pessoas construíram, ao longo de suas vidas, uma visão diferente — e, por vezes, mais crítica — desse esporte.
1. Não enxergam o futebol como algo relevante para suas vidas
Para muitas pessoas, o futebol é fonte de diversão, emoção e pertencimento. Para outras, trata-se apenas de um jogo. Elas podem reconhecer sua importância cultural sem, necessariamente, sentir qualquer envolvimento emocional com ele.
2. Associam o futebol a experiências negativas
Algumas pessoas cresceram em ambientes onde o futebol estava relacionado a conflitos familiares, rivalidades agressivas, violência entre torcidas ou comportamentos excessivos. Nesses casos, a rejeição pode estar ligada mais às experiências vividas do que ao esporte em si.
3. Desenvolveram uma visão crítica da indústria do futebol
Há quem admire o esporte, mas critique aspectos como a comercialização excessiva, os altos salários de atletas, os interesses econômicos envolvidos em grandes competições ou o uso político de eventos esportivos. Para essas pessoas, a crítica costuma ser direcionada ao sistema que envolve o futebol, e não necessariamente ao jogo.
4. Não se identificam com as emoções coletivas que cercam a Copa
A Copa do Mundo é um fenômeno social marcado por intensa mobilização emocional. Algumas pessoas gostam dessa experiência coletiva; outras preferem formas mais reservadas de lazer e expressão emocional. Isso não significa falta de empatia ou dificuldade de socialização, apenas uma maneira diferente de se relacionar com eventos coletivos.
5. Rejeitam a ideia de que todos deveriam gostar de futebol
Talvez este seja um dos motivos mais interessantes. Em uma cultura onde o futebol ocupa um espaço tão central, algumas pessoas sentem desconforto diante da expectativa social de que todos devam torcer, acompanhar os jogos ou demonstrar entusiasmo durante a Copa. Em certos casos, a rejeição ao futebol pode representar uma afirmação da própria individualidade.
6. Simplesmente não entendem futebol — e nunca tiveram interesse em entender
Pode parecer óbvio, mas vale lembrar: nem todo mundo compreende as regras, as estratégias ou a lógica do futebol. E não há nada de errado nisso.
Muitas pessoas cresceram sem contato significativo com o esporte, nunca desenvolveram curiosidade pelo tema e, consequentemente, não conseguem enxergar a graça que tantos outros enxergam. Afinal, é difícil se envolver emocionalmente com algo que não entendemos muito bem.
Imagine assistir a uma partida de xadrez sem conhecer as regras, ou acompanhar uma ópera sem entender a história. Para quem está de fora, boa parte da experiência pode parecer monótona ou sem sentido.
Talvez algumas pessoas não detestem o futebol. Talvez apenas nunca tenham encontrado razões para se interessar por ele.
7. Saturação cultural
- A pessoa sente que o futebol ocupa espaço demais na mídia, nas conversas e na cultura brasileira.
- Não odeia o esporte; odeia a sensação de que tudo gira em torno dele.
8. Necessidade de diferenciação
- Algumas pessoas constroem parte da identidade em oposição ao que é popular.
- Quanto mais universal parece ser uma paixão, menos atraente ela se torna para elas.
9. Falta de recompensa emocional
- Simplesmente não experimentam a descarga emocional que outras pessoas sentem ao assistir a uma partida.
- O cérebro delas encontra prazer e engajamento em outros interesses.
10. Crítica ao tribalismo
- Algumas pessoas enxergam as rivalidades esportivas como versões socialmente aceitas do "nós contra eles".
- Consideram o fenômeno interessante do ponto de vista sociológico, mas não desejam participar dele.
Perceba que nenhum desses motivos indica, por si só, um problema psicológico. Eles apenas revelam diferentes formas de interpretar um fenômeno cultural que, embora extremamente popular, não desperta o mesmo significado em todas as pessoas.
Referências em ABNT
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MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
Conteúdo informativo desenvolvido pela
Psicóloga SP Maristela Vallim Botari CRP-SP 06-121677
Este material possui caráter reflexivo e não substitui a consulta psicológica, nem tem a pretensão de esgotar os assuntos. Leia outros artigos no Blog da Psicóloga

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